Neste Verão vou procurar os encantos dos cantos e recantos do Jardim Púrpura que dizem estar voltado para a cidade glauca eternamente mergulhada no movimento dos que passam sem contemplar e dos que olham para baixo com receio de serem encontrados. Uma cidade que em cada minuto que passa cresce na direcção da sombra que indelevelmente apaga o desejo de um beijo velado sob um brando sol poente que ainda aquece apesar da álgida noite o querer mais cedo adormecer.
Talvez tenha sido o fumo com cheiro a sardinha, as quadras escritas em rectângulos pregados em vasos de manjerico ou a música de fundo trauteada em falsete por vozes pouco afinadas que do velho bairro ecoa pela noite que ainda agora vai a meio, que veio despertar este espaço de escrita e encontros.
Nos últimos anos, poucas vezes fui às festas dos Santos Populares, apesar de ter alguma simpatia pelo padroeiro de Lisboa, eterno rival de S. Vicente de Fora.
Na Primária, no Grémio de Instrução de Campo de Ourique (na década de '60) ainda fiz tronos ao Santo, com fitas garridas e papel de lustro colorido, do melhor e mais caro (10 tostões a folha!) e que era religiosamente guardado para os trabalhos especiais e aproveitado até ao último centímetro quadrado! Alguns arranhões feitos pelos fios de metal e pregos foram a paga da construção dos arcos enfeitados com fitas e balões de papel com os quais raparigas e rapazes desfilavam pelas ruas do bairro entoando canções, desde a rua da Arrábida até ao velho jardim da Parada, ainda com pavões e galinholas que corriam gritando "estou-fraca", "estou-fraca", ao som do esforço das nossas cordas vocais. Recordo, vagamente, outros grupos que se juntavam à nossa volta, também eles de arquinho e balão, todos nós segurando o sonho de um fim de tarde de Primavera em que o Santo segurava o Menino (sim, porque meninos éramos todos nós) e as canções coloridas pelas fitas garridas que pendiam dos fios que ligavam as árvores espantavam as sombras da noite que se avizinhava.
Anos mais tarde, no final da minha adolescência, com o meu grupo de amigos percorríamos as ruas de Alfama, da Madragoa e toda a envolvência do Castelo onde primavam os largos com mesas cobertas por toalhas brancas e vasos de manjerico no meio, com bancos corridos onde as pessoas se sentavam para comer as sardinhas assadas acompanhadas de pimentos assados num fogareiro artesanal colocado à entrada da tasquinha, cujas brasas eram afanosamente mantidas acesas por um abanico meio chamuscado que não tinha descanso durante essa noite. O jantar acompanhava-se de sangria fresca, e, para quem quisesse, caldo verde com duas ou três rodelas de chouriço que pingavam cor com gosto a fumeiro para dentro da sopa. Recordo que não havia excessos, nem de comportamentos, nem de bebida. E recordo que havia espaço, espaço para andar, para arriscar uns passos de dança no soalho do palco improvisado, para ver, não o fim, mas pelo menos o meio da rua. A música, apenas portuguesa, ouvia-se bem, mas permitia uma conversa.
Nos anos que se seguiram, a multidão tomou conta das ruas, uma turba confusa e ruidosa que se atropelava rua abaixo, rua acima procurando não sei bem o quê, que urinava virada para a parede e que bebia cerveja até à exaustão deixando os copos de plástico no empedrado dos passeios ou alcatrão. As mesas dos larguinhos à frente das tascas convertidas em restaurantes típicos já não têm toalhas ou bancos corridos, os velhos fogareiros em forma de ampulheta são agora uma memória e as canções que enchem o ar têm sotaque ou não são em português.
Porém, no meio desta barafunda, a sardinha ainda por lá passa, bem como os que tentam estoicamente reviver o espírito dos arraiais e dos santos populares.
A esses, aos que ainda se divertem sem acrescentarem o elemento de banalidade à narrativa de uma noite dedicada ao cozinheiro dos franciscanos de Montepaolo, desejo uma boa noite de Santo António!
Por vezes desconhecemos a força constrangedora de uma educação religiosa. A sabedoria de um deus, infinitamente perfeito e superior, abate-se com todo o poder sobre a criança atenta e ansiosa de aprender os mistérios do mundo. Com a ajuda de um catequista zeloso, formam-se na imaginação fértil as imagens terríveis do inferno – ali sofrem para sempre os culpados da sua imperfeição, soberba ou vaidade. Pecados mortais! Tudo pecados mortais!
O catequista inflama-se um pouco mais, arregala os olhos de terror e confessa, entre a audiência de rebentos, como os torturados ardem no inferno! Como tochas vivas! A seguir, junta as mãos em prece. Fala da redenção do Purgatório. Porque deus é misericordioso. Acessível aos que não foram pecaminosos por inteira má consciência. Fascina-me esta expressão «inteira má consciência» como se a consciência pudesse ser má e, sendo-a, pudesse ainda ser má de todo ou apenas em metade ou em outra parte mais pequena. Para esses, o Purgatório.
Ninguém vai para o céu, bem vistas as coisas. Apenas os santos, sim. Os que se mortificaram em vida e seguiram a santa igreja. Esses que levam ao extremo do delírio a ideia de que há destinos já escritos, a cumprir escrupulosamente. (Ao menos o outro teve a decência, já condenado na cruz pelos fanáticos religiosos da época e as ânsias do Império, de perguntar ao seu poderoso por que o tinha abandonado).
Parece incrível que estes pensamentos me tenham visitado hoje, a propósito de ter comprado o meu primeiro par de sandálias. São umas sandálias vulgares, em tom castanho claro e com reentrâncias que deixam entrar, pelo movimento do andar, uma frescura agradável. Estamos já em pleno Verão, diga-se. Se comprei umas sandálias não é por qualquer alegoria com hábitos de peregrino. Se há alguma coisa de transcendente no facto de eu ter comprado umas sandálias isso é profundamente contrário aos ensinamentos que a santa igreja católica me incutiu. Uma coisa é certa: nunca tinha andado de sandálias. E que frescura me dão aos pés! Que leveza no andar!
Lembro tantas palavras santas como «vê como te vestes», «abotoa a camisa até acima», «os meninos que querem ser doutores não andam com as unhas sujas», «não se assoam ao braço», «não põem os cotovelos sobre a mesa», «usam um guardanapo para limparem a boca» e, como corolário lógico sobre os meninos com futuro radioso: «não andam de sandálias, que deixam entrar as poeiras», «amam os seus pais, e acima dos pais terrenos o Pai que está no céu e tudo vê». Desde aí, com empenho enlevado perscruto as manchas de pó nos meus sapatos, engraxo com pomadas e esfrego com panos os sapatos que tenho até reluzirem como os santinhos no altar! Tudo na catequese é o horror ao pecado ou a uma mancha de sujidade.
Não coloco os cotovelos sobre a mesa. Porque é feio. Nunca andei de camisa aberta, é certo. Lavo as mãos antes e depois de comer. O caminho para o céu não suporta faltas de higiene! Formalidades que aprendi de forma natural. Excepto, talvez, o pormenor das sandálias… Demorou algum tempo. Esta minha falta de hoje pode ainda dever-se ao calor que se fez sentir esta tarde. (Peço redenção! Deus é misericordioso!). Demorou algum tempo, já o disse. Quarenta anos, para ser exacto.

Nunca soube muito bem interpretar o espírito de um lugar, nem o que é isso de os lugares terem espírito. Os lugares têm uma forma, e conteúdos vários conforme as memórias e os percursos que se tornam acessíveis. Memórias acessíveis porque lugares para recordar. Pode acontecer que não se regresse a um lugar, mas à memória regressa-se sempre. Por mim, quero voltar. A tudo, sendo tudo diferente em cada instante. Percursos acessíveis, disse. Porque dispostos para o olhar e o acto de caminhar. Percursos como caminhos que se descobrem.
Conheço a palavra perdida. Conheço também os atalhos, que a água corre. As colinas que desafiam o cansaço. Nunca o cansaço de viver. Fecho o ciclo, digo. Regressarei. Renascido. Limpo de mágoas, reinvento a infância. Reencontro a árvore, bem fundo gravei a palavra. Ali, onde escondi o livro de poemas. Ou na atmosfera rosa, no ar sem sentido. Há muito tempo atrás. Quando criança, confesso, atirava pedras contra os mudos céus. Apenas a infância permite a loucura que liberta. Depois, tudo se perde. Uma pedra gasta, o horizonte. Reaprendo a sonhar. Diz-me a verdade, que minha alma ainda não morreu. Um olhar me cativa. Longe, perto. Talvez o sonho de tanto sonhar me seja excessivo. Eu peço o pouco que é muito. Demasiado. O tempo torna-se agreste para a amizade. Esfria? Longe, tão perto. Os lugares não são apenas uma forma geométrica com cores. Percursos para caminhar. Tu sabes.
Ali estão as colunas, intactas. A fonte misteriosa da água ainda existe, à nossa esquerda. Um prenúncio de poente, mais adiante. Um dia voltaremos. . Quem sabe? A memória é paciente. Como os caminhos para percorrer.

Hay almas que tienen
Azules luceros,
Mañanas marchitas
Entre hojas del tiempo,
Y castos rincones
Que guardan un viejo
Rumor de nostalgias
Y sueños.
Otras almas tienen
Dolientes espectros
De passiones. Frutas
Con gusanos. Ecos
De una voz quemada
Que viene de lejos
Como una corriente
De sombra. Recuerdos
Vacíos de llanto.
Y migajas de besos.
Mi alma está madura
Hace mucho tiempo,
Y se desmorona
Turbia de misterio.
Piedras juveniles
Roídas de ensueño
Caen sobre las aguas
De mis pensamientos.
Cada piedra dice:
Dios está muy lejos!
[FGL]

Fraternidade.
Ainda a poesia é.
Futuro.
LA QUÊTE
(J. Brel)
Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile
Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon coeur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.
Com as suas perspectivas científicas, no campo da psicologia ou das ciências do comportamento e da comunicação, o legado mais importante de Milgram pode dividir-se em dois planos: ética e metodologia.
No plano da ética, Milgram não dissociou a ciência de princípios éticos. Procurou nas suas pesquisas desmontar a teia social que, urdindo a normalidade quotidiana e o seu cortejo de rotinas, esconde um potencial de violência incalculável. Discutiu, assim, as consequências desastrosas de uma obediência às autoridades (*), mesmo às autoridades científicas.
Também nos trouxe a esperança, se não a esperança social pelo menos a esperança estatística, de cada pessoa estar ligada a todas as pessoas em todo o mundo, apenas com base nos nossos relacionamentos individuais!
No plano metodológico explorou as situações laboratoriais que simulam, por reprodução, contextos sociais de interacção. Deu novo impulso a técnicas de pesquisa sobre a racionalidade dos actores sociais e os significados que estes atribuem às suas acções.
(*) Pode consultar-se aqui a obra original, na quase totalidade.
O epílogo desta obra é sobre o conflito entre consciência e autoridade.
Uma outra experiência de Milgram tentou calcular os graus de separação que nos afastam dos outros, em termos de conectividade social. Consistia em enviar correspondência por pessoas conhecidas de um grupo inicial até que determinada pessoa, desconhecida das primeiras, a recebesse - a experiência contou com 160 pessoas que viviam em duas cidades do Nebraska e a «pessoa-alvo», que as 160 pessoas iniciais desconheciam, morava numa terceira cidade diferente, em outro estado, creio - Milgram calcuclou que cada pessoa de um grupo dista de outra, de um grupo diferente, por apenas seis graus de separação. (Em média, a correspondência chegava ao destino da «pessoa-alvo» ao fim de passar por outras seis pessoas).

A teoria foi alvo de polémica e de contestação, mas experimentou recentemente uma renascida curiosidade por causa das redes sociais que os meios de comunicação, e em especial a internet, multiplicam.
De qualquer forma, é bem verdade que o mundo é pequeno e que estamos todos ligados a todos.
Se eu conhecer apenas 10 pessoas, e cada uma dessas 10 pessoas conhecer outras 10, de facto em apenas dois graus de separação (10x10) eu já estou ligado a 100 pessoas. A minha rede social adquire uma dimensão exponencial: ao fim de 6 graus de separação (10 elevado a 6) eu já estou em contacto indirecto com um milhão de pessoas (que, por sua vez, conhecem muitas mais)!
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A teoria dos seis graus de separação também inspirou um conhecido filme de Fred Schepisi, e mais recentemente a série Perdidos (Lost) que explora a possibilidade de pessoas desconhecidas, à partida, partilharem elos comuns de ligações sociais.
Não sei se a distância social que afasta qualquer indivíduo face a qualquer outro, em qualquer parte do mundo, tem a expressão de seis graus de separação. Pode ser mais. Ou menos. Dependerá das circunstâncias, mas existe um qualquer nível de conectividade global.
Conectividade relacional. Essa prova-se, hipoteticamente. Pertence ao domínio da matemática.
A conectividade emocional é mais difícil de provar. Pertence ao domínio da ética ou das religiões. Mas, o que nos associa a outro ser humano? Uma conectividade presente que tem que ver com o passado? E a que distância fica esse passado?